Inquietude

Geração Millennials: inquietos por natureza

Certa vez, quando falei pra uma chefe que estava cansado do jornalismo, desiludido, e queria dar um tempo de São Paulo porque a cidade era muito caótica, ela respondeu: “a sua São Paulo é caótica, né Igor?”

Na hora tive vontade de responder um monte de desaforos. Fiquei bravo, muito puto da vida, mas disfarcei por respeito à diferença de posições na empresa. Aquele pensamento rondou minha mente por um bom tempo. A “minha” São Paulo era caótica? Então a de todos os outros que ralam para viver com dignidade na selva de pedras era mais tranquila? O que alguém tão bem-sucedido e que aparentemente não passa por dificuldades financeiras saberia a respeito das minhas lutas, pra julgar assim?

Hoje eu entendo cada palavra daquela frase. A “minha” São Paulo era mesmo um caos. Jornadas longas de trabalho, emendadas a eventos sociais de domingo a domingo. Muita bebida. Muita gente errada na minha vida – e vice-versa. Ralação diária para pagar o aluguel de uma cobertura na rua Augusta. E embora não fosse da conta de ninguém, sei que aquela alfinetada da chefe era para o meu bem. 

Em meio a isso tudo, dei um tempo do jornalismo. Aliás, da reportagem, porque mesmo no processo criativo dos meus livros, o jornalismo foi a principal ferramenta, ainda que eu não enxergasse. Mas sempre precisei de algo mais.

O que pouca gente sabe é sobre minha paixão por pesquisa e por tendências. Quando decidi lançar uma plataforma de futurismo (ou futurologia, mas isso eu explico na próxima coluna), foi colocando esse prazer para fora. Exercendo algo que já fiz em determinados momentos no caminho, e agora adoto como profissão. Claro, tudo envolve muito estudo e embasamento. E, claro, não vou novamente achar que o jornalismo vai “sair de mim”. Aliás, porque teria que abrir mão de uma coisa, pra fazer a outra?

Há quem questione os inquietos que têm vários projetos profissionais. Acho que esse é um dilema comum no mercado criativo. Felizmente, a gente não liga muito para as críticas que tentam nos desestimular. Nada melhor, para definir a sensação, do que parafrasear Paula Scher, maior ícone vivo do design gráfico: sou movido pela esperança de que ainda não fiz meu melhor trabalho. Criar coisas é o melhor de tudo. Essa vontade nunca desaparece. O que posso fazer a seguir?

Igor Zahir é jornalista, escritor e crítico cultural. Este texto foi publicado originalmente na coluna do Jornal Vanguarda, de Caruaru, no dia 9 de março de 2019.

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