Aqui jaz a humanidade

Foto: Arquivo pessoal

Quando foi anunciado que a ativista Sabrina Bittencourt se suicidou, no início de fevereiro, uma comoção geral tomou conta do Brasil. Afinal, ela foi a responsável por encorajar uma rede de mulheres a denunciar os abusos sexuais de líderes religiosos como Prem Baba e João de Deus. Sabrina ganhou status de heroína internacional e, consequentemente, perdeu toda a paz que lhe restava.

Uma série de informações controversas, somada à recusa dos familiares em dar detalhes sobre o falecimento dela, fez com que o cenário mudasse em menos de dois dias. A hipótese de ter forjado sua própria morte ganhou força quando a embaixada do Brasil no Líbano (país onde o filho afirma que Sabrina se matou) revelou que não foi registrado nenhum óbito de cidadão brasileiro por lá desde o último dia 2.

Pronto, o jogo virou. Inúmeras revistas e sites que antes a admiravam, começaram a insinuar que ela estaria viva, que tudo não passou de uma “morte simbólica” pra assumir nova identidade e se livrar da perseguição que sofreu nos últimos tempos. A figura de Sabrina Bittencourt, de ídolo feminista, passou à fanática mitomaníaca até para seus supostos aliados.

Seus inimigos declarados, então, tripudiaram como puderam. O maior deles, figura tão abominável que não merece nem ter o nome citado, passou dos limites: desprovido de qualquer outro argumento depois de tantos ataques que dirigiu à Sabrina, ele começou a questionar a orientação sexual dela. Nunca vi nada tão baixo, tão medíocre. Como se sabe, para os defensores do patriarcado, a culpa do assédio é sempre da vítima, mulher corajosa é vista como lunática e, quando elas não se intimidam, têm sua dignidade questionada. Ou, nesse caso, perdem até o direito de morrer.

Não sei se foi um pseudocídio, como chamam o ato de alguém forjar a própria morte. Não posso afirmar que Sabrina morreu realmente. Após o fechamento da coluna, ainda vão rolar muitos episódios dessa série policial da vida real. O que tenho certeza é que uma entidade divina deveria cravar uma lápide sobre o planeta Terra. No epitáfio, a frase: “aqui jaz a humanidade. Após perder o bom senso, foi engolida por um ódio canibal. E nada sobrou”.

Igor Zahir é jornalista, escritor e crítico cultural. Este texto foi publicado originalmente na coluna do Jornal Vanguarda, de Caruaru, no dia 9 de fevereiro de 2019.

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