Cão que ladra…e morde

Foto: Reprodução

O valor de um bom texto jornalístico vai além do que se possa imaginar. Conquanto, são poucos os registros de veículos que se atreveram a deixar um legado tão atemporal quanto o jornal “A Cachorra”, que circulou em Recife durante efêmeros três dias em agosto de 1880, e que eu tomei conhecimento através de uma publicação da Biblioteca Nacional.

A começar pela esplêndida carta editorial: “Eu bem sei que é para causar admiração os irracionais serem políticos, porém como o mundo é assim mesmo, sou uma política de quatro costados”.

Sob forte anonimato de seus editores, o jornal, feito por democratas com ajuda de aliados conservadores, tinha por objetivo chacotear o sistema político brasileiro (e mais ainda, de Pernambuco), sobretudo os componentes da família Leão.

Briga de animais (cachorros X leões) à parte, a verdade é que a publicação, de uma genialidade e sarcasmo ímpares para sua época, era um prato cheio com suas tiradas polêmicas, como essa sobre um “jantar fraternal”:

“O [senador gaúcho] Silveira Martins, inspirado ou não pelo deus Baco, o que é certo é que disse: ‘protesto contra a independência e patriotismo da Câmara [dos Deputados], pois é subserviente e só faz o que o governo quer’. Os deputados ofendidos saíram resmungando: aquilo que disse o Silveira é uma verdade, pois que tudo que o governo quer, nós queremos, porém, todas as verdades não se dizem! A isto eu lati – au, au, au au!”.

O engraçado (levando-se em conta o princípio “rir pra não chorar”) é que, 140 anos depois, os assuntos abordados pelo jornal “A Cachorra” continuam em pauta. Não que a imprensa não tenha se reinventado – o comportamento dos nossos políticos é que não mudou, e se mudou, não foi em âmbito positivo.

O triste é saber que hoje conta-se nos dedos os veículos de mídia que são como aquele, que há dois séculos já mostrava o indiscutível: quando não se tem rabo preso ou entre as patas, cão que ladra morde, sim.

Igor Zahir é jornalista, escritor, futurista e crítico cultural. Este texto foi publicado originalmente na coluna do Jornal Vanguarda, de Caruaru, no dia 17 de maio de 2019.

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