Desencanto e frustração

Charge de Ricardo Welbert

Faz tempo eu não via e nem sentia tanto desencanto em relação à qualidade de vida neste país. Há um sentimento geral de frustração, de perda de esperança, talvez da última esperança. É um estado de espírito doentio, que alimenta conversas sérias e papos informais, influindo negativamente em atitudes e decisões de todos nós. Infiltra-se no fazer e no viver das pessoas. Individualmente é uma angústia sufocante, uma contração no peito e na garganta, asfixiando. 

O homem não pode viver sem esperança, crença que alimenta a vontade de lutar sem desespero. Ele necessita de gente em quem confiar.  Onde andará essa gente? Esconde-se, talvez com vergonha, pois o estágio moral é aquele do qual falou Rui Barbosa. O homem sente vergonha de ser honesto. Deprimente! 

Se o Brasil caminha mal, o povo vai pior. Tudo que ocorre agora, sob o governo de Bolsonaro, para lá de péssimo, pode não ser tudo ainda, feita a antevisão do que acontecerá caso não se encontre uma fórmula para frear os desacertos da política e economia. Seria muito, no momento, pensar-se em solução, tal a gravidade. O poder de destruir vem superando o de construir, em vários aspectos, sobretudo naqueles que esmagam a classe pobre que, no passado, no presente e no futuro, é a mais sofredora, estando proverbialmente condenada a aguentar as inconsequências de tudo e de todos. 

A harmonia social, que não significa inexistência de discordâncias, continua um sonho, distante anos-luz da realidade. Pregada, só de leve tem sido vivenciada em alguns sentimentos da sociedade.

O sofrimento é antigo. Espanta é suportá-lo quase sem protesto concreto. As pessoas parecem entorpecidas diante de situações que poderiam ser melhoradas, se fossem recusadas. No entanto, ainda há indivíduos que aguardam dias melhores como presente de governos generosos. Lembro, aqui, o pensamento de Confúcio: “O que sufoca o bom grão não são as ervas daninhas, é a preguiça do cultivador”.

Busque, cada um, em si próprio, o remédio para o desencanto e a frustração. Fora, é ilusão.

Igor Zahir é jornalista, escritor, futurista e crítico cultural. Este texto foi publicado originalmente na coluna do Jornal Vanguarda, de Caruaru, no dia 4 de maio de 2019.

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